“Não, desta vez não era “uma vez um burro” mas sim duas vezes
um burro que vivia em casa dos seus donos. Há muito que trabalhava para eles, e
os donos já tinham muita confiança nele e não o prendiam. Um dia um gato
perguntou-lhe há quanto tempo estava ali e o burro disse:
- Eu estou aqui desde que nasci. Mas não te vou dizer quantos
anos tenho.
- Adeus, até à próxima. Os humanos vão matar-te.
O burro fingiu que ignorou aquele assunto, mas ficou a pensar
nisso. Seria verdade?
No dia seguinte apareceu uma raposa que era muito pequena e
tinha um olhar curioso. O que queria ela do pobre burro?
- Burro, burro! Como o próprio nome indica, tu és muito
esperto e já devias saber que os teus donos te vão matar. Deves fugir enquanto
podes.
- E como é que eu faço isso?
- É só pedires que eu abra a porta, e podes sair.
- Amanhã de manhãzinha?
- Ok. (Sim, os animais também usam esta linguagem)
O burro ficou ansioso e apercebeu-se que estava enervado: e
se corresse mal?
Mas não podia correr melhor. O burro fugiu e começou a
correr. A raposa pediu-lhe que viesse viver com ela e com o gato. O burro disse
que sim, mas não sabia o que estava para vir: a condição era tirar 10 kg de
comida fresca. O burro começou por ir a uma loja de rua, onde tirou toda a
comida, achou que já tinha 10 kg, mas afinal ainda nem 3 tinha.
Acontece que o burro teve de roubar mais um bocado ali, outro
acolá e outro acolí. Os donos de casa, quando se levantaram e não viram o
burro, chamaram logo a polícia. A polícia já tinha tido queixas de outros assaltos
de um burro e perguntou-lhes como era o animal. Os donos disseram que era
grande e ligeiramente vaidoso. A polícia iniciou as buscas, que começaram a
cercar toda a aldeia. O que eles não sabiam era que o burro estava a mais de 10
km. Só quando viram uma queixa de um assalto na vila mais próxima é que
começaram as buscas num raio de 50 km.
Foram apertando aos poucos o cerco e o burro estava a ficar
encurralado. Como iria fugir? (Sim, o burro já tinha percebido que a polícia
andava atrás dele)
Escondeu-se numa casa, em que os donos não estavam e
escondeu-se dentro do piano, sítio onde ninguém procuraria. Arrancou tudo e
voltou a meter, para disfarçar e ninguém desconfiar.
A polícia também revistou a casa e procurou em todos os
sítios, exceto no piano.
Toda a gente se assustou quando viram que o burro não estava
naquele raio de km. Voltaram a procurar, e desta vez procuraram no piano, só
que ele já não estava lá. Tinha-se escondido numa mala de um carro, que tinha
ficado aberto enquanto o dono ia ver o correio. Deixaram o carro passar através
das barreiras e 1 hora depois, o burro soltou-se sem que o condutor desse por
isso. Entretanto já estava longe. Deixou de ter esperança da raposa e do gato
mas, por outro lado, também começou a pensar que nunca a polícia procurasse
ali.
Foi para uma casa que estava à venda e ficou lá durante um
tempo.
A polícia apanhou a localização do burro através do seu
cheiro, pois tinham-lhe metido uma bombinha de mau cheiro.
O burro ligou para o 112 e atenderam logo. Ele disse que estavam
a assaltar a casa uns homens vestidos de polícias e para mandarem vir alguém.
Houve pessoas que vieram logo e, com a confusão, o burro saiu.
Estava agora de noite e o burro tinha frio. Toda a gente o
conhecia a nível local, por isso tinha de ir para o norte ou ir para outro
país. Entrou num papa-reformas e começou a andar. Os papa-reformas eram mais
lentos que os carros da polícia, mas ele era mais esperto. Metia-se por sítios
que os carros grandes não passavam e, como o carro era fácil de andar, não
bateu e nem se atrasou. Viu uma placa azul e branca. Dizia “PORTO”, mas como
ele mal sabia ler, apenas leu “Port”. “Estou em Portugal”, pensou ele.
Depois achou que tinha lido “Orto” e, sem saber o que era,
imaginou apenas que fosse o mais temido: Morto.
Tentou fugir daquele sítio. Tinha ainda mais frio e tinha de
se esconder. Teve a triste ideia de se atirar ao riacho ali mais perto, para se
esconder, só que a água estava muito fria e ele teve que fugir. A polícia
estava a aproximar-se. O que iria acontecer?
O burro parou quando a polícia lhe bateu. Não sabia o que
fazer. Tinha de mudar de país. Mas como?
Foi preso, mas sabia que bastava puxar e a corda
desprendia-se.
Tudo era estranho. Como é que num dia a vida muda
completamente?
Soltou-se pela estrada e começou a correr. Corria devagar,
porque estava muito cansado. Leu uma placa que dizia “Espanha a 10 km”. Ele
pensou que estava perto mas não esperava o que estava para vir.
Um grupo de pessoas que vinha de um jantar aproximava-se.
Vinham a cantar, animados e muito vermelhos. Parecia que não notavam que o
burro estava ali. Atropelaram o pobre coitado e só quando o burro bateu contra
o vidro do carro é que as pessoas se aperceberam. Ligaram logo para a polícia.
O burro não tinha muito tempo para fugir, mas como o motorista tinha excesso de
álcool, teve de pagar multa. O burro fugiu no escuro. Relaxou quando entrou em
Espanha, por baixo da barreira. Estava lá um túnel que ia dar ao outro lado.
Estava tudo perfeito até a altura em que o burro encontrou
novos donos. Pensava que eram da polícia, mas quando viu as caras percebeu: era
um casal que ele reconheceu de imediato. O casal da casa do piano! Estava lá
uma fotografia deles.
Eles quiseram ficar com o burro e o burro também não ficou
muito zangado por isso. Foi viver para uma quinta e tinha lá outros animais
incluindo outros burros, que também queriam companhia.
Arranjou uma burrita e tiveram um filhinho.
Reza a lenda que um dia o burro vai soltar-se e vai ele com a
burrita e o filho para mais uma aventura. E quando menos esperares ele vai
aparecer-te à frente a pedir-te que lhe faças festas. Era um burro muito
carinhoso.”
- Gostaste da história?
Mas quando se virou o neto já estava
num sono profundo…
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